Escritos · 04 de setembro de 2026
O tempo e o ser
O tempo só ganha corpo quando a carne consente em ser, a um só gesto, travessia e morada. O tempo só se faz presença quando consentimos em ser a fresta onde a travessia e a permanência coincidem.

O tempo por vezes soa estranho e indescritível, ainda que guarde uma familiaridade íntima. Talvez seu grande mistério resida aí: habitar em nós como presença viva e, ao mesmo tempo, permanecer distante. Na física, compreende-se isso como um fluxo próprio do real, aquilo que nos alcança já está implicado em nós antes mesmo do encontro. Contudo, não somos nós quem governa esse toque. É por isso que o tempo escapa a qualquer contorno definitivo: ele não é um objeto a ser capturado e nomeado lá fora, ao passo em que já se encontra aí, já sempre compreendido.
Isabelle Trida • CRP 04/87665
